O Amor e as Drogas

Meu nome é Letícia. Conheci meu grande amor aos dezessete. Há exatos 10 anos atrás meu pai arrumou um emprego em outro bairro aqui em São Paulo e mudamos de bairro por isso. Minha antiga escola ficava muito distante então tive que estudar em uma escola que ficasse mais perto de casa. Mudar de escola no meio do ano, em pleno terceiro colegial não é simples.

Primeiro dia de aula e lá estava ele, sentado na última mesa no fundo da sala. Lindo. Entrei, sentei no meio da sala olhei pra trás e ele estava me olhando. Não sei por que, mas meu coração acelerou. Percebi que algumas meninas da sala me olhavam e cochichavam, ninguém falou comigo. A professora quando entrou na sala foi quem pediu para que eu me apresentasse. Ao final da aula, organizando as minhas coisas olhei pra trás e nossos olhares se cruzaram novamente. Coração acelerou de novo e fiquei nervosa, levantei e fui embora. Isso aconteceu a semana inteira. Até hoje não entendo o porquê que ninguém da sala falava comigo. Eu ficava lá sozinha e às vezes olhava pra trás, ele sempre estava me olhando. Na sexta-feira um dos meninos que sentavam no fundo, veio falar comigo sobre uma festa da sala que seria na casa de alguém da sala, para arrecadar dinheiro para a festa do final do ano. Agradeci o convite e imaginei que talvez fosse a possibilidade de conseguir me enturmar. Liguei para as minhas amigas da escola anterior, eu tinha muitas amigas lá. Elas iriam dormir na minha casa, sete amigas. E fomos para a festa. Chegando lá todo mundo olhando mas eu estava me sentindo mais segura já que não estava sozinha como sempre. O menino que me convidou veio falar comigo e perguntou se queríamos algo para beber. E assim foi a noite. Bebidas, muitos meninos em volta das minhas amigas, as meninas da festa que nos olhavam de cara feia e finalmente: Ele. Que para a minha surpresa, era o dono da casa. Foi super educado conosco e me deu a maior atenção durante a noite. Ele fumava vários cigarros, não gostei, mas isso não era nada perto do que descobri depois.

Uma confusão aconteceu na outra semana com uma menina da nossa sala que era ex-namorada dele. Ela pensou que eu tinha ficado com ele na festa. Mas ele mesmo foi quem se meteu na briga e disse pra ela ficar longe de mim e que nada tinha acontecido, mas que se dependesse só dele tinha acontecido. Foi aí que tive certeza das intenções dele e uma certeza maior que não teria amigas naquela sala. Naquela mesma semana, ao sair da escola ele estava lá fora, lindo como sempre. Me olhava e sorria. Nos aproximamos e ele perguntou se poderia me acompanhar até em casa, e foi aí que nos beijamos pela primeira vez. Foi mágico, ele era diferente de todos que eu já tinha beijado.

Logo a notícia se espalhou e uma das amigas da ex dele veio fazer fofoca falando que ele não valia nada, que era o conquistador da escola, que pegava todas, que só ficou comigo porque eu era nova ali e ele tinha que ser o primeiro. Fiquei com o pé atrás e como não consigo guardar nada tratei de falar com ele sobre o que me contaram. Pra minha surpresa ele não negou nada além de ter ficado comigo só pra ser o primeiro. Assumiu que já tinha ficado com muitas meninas da escola, que não queria nada sério com nenhuma delas, que se isso era não valer nada então ele não valia nada, mas que só tinha se interessado por mim por eu ser diferente das outras. Ele falou que naquela festa, foi a primeira vez que ele estava gostando tanto de conversar com uma garota que preferiu não tentar nada pra não estragar a conversa.

O tempo passou não fiz amigas, mas encontrei um amor. Um amor meio torto, não era dos mais cavalheiros, mas tinha o sorriso mais lindo desse mundo. Ficamos juntos por 5 meses até que o fato de não namorar com ele começou a me incomodar e falamos sobre isso. Ele disse que aquela fulana da sala foi a única namorada que ele teve, que namorou porque ela pressionou e além disso, ela disse que só faria sexo se namorasse. Ele disse que se fosse namorar de novo que fosse por motivos que estivessem relacionados aos sentimentos dele.

Um tempo passou, e descobri que ele fumava maconha. Mais um tempo passou e descobri que às vezes, ele cheirava cocaína. Outro ano tinha começado e eu não tinha emprego, nem tinha passado pra faculdade, não tinha namorado e o cara que eu amava, usava drogas.

No ano seguinte, enquanto eu estudava pra entrar na faculdade, ele fumava maconha. Tudo que eu queria era ajudá-lo, mas só hoje eu sei que não dá pra ajudar ninguém se essa pessoa não quiser ajuda.

Os três anos seguintes foram conturbados. Consegui iniciar a faculdade, mas por outro lado, tudo só piorava. Minha família não me queria perto dele, ele pediu pra namorar comigo um dia, eu aceitei e no outro ele retirou o pedido falando que estava muito “louco” e por isso fez aquilo.

Enquanto ele fumava só maconha, não tinham tantos problemas. O que piorava tudo era a cocaína.

Os pais dele nem desconfiavam, dá pra acreditar? A mãe era dessas peruas que viviam pra gastar o dinheiro do marido e o pai um empresário muito bem sucedido, o que fazia do meu amor um menininho rico, mimado e drogado. Os pais dele passavam a maior parte do tempo longe de casa, ele filho único sem ninguém pra vigiar o que acontecia.

Eu sabia que ele me traía. Mesmo que não namorasse, sabia que ele transava com outras já que estávamos juntos há três anos e eu ainda era virgem. Eu tinha vontade, mas queria que ele estivesse bem pra isso. Não queria perder a minha virgindade com alguém que estivesse muito “louco”. E quanto mais eu sentia que era a hora de acontecer, mais ele se afundava no pó. Até que um dia a mãe dele o encontrou muito mal e me ligou. Acabei contando tudo pra ela. Ela pirou, e o pai dele o internou numa clínica de reabilitação. Ele me odiou por isso. Ficou lá três meses e não quis me ver. Quando saiu, disse que não queria mais nada comigo, que eu tinha acabado com a vida dele.

Sofri mais de 1 ano sem ele e as notícias que eu tive foram que ele tinha voltado a se drogar e que estava com uma menina que também usava. Foi um ano muito difícil na faculdade, em tudo. Até que fui conseguindo melhorar. Eu tinha um professor que era muito legal comigo, no fundo eu sabia que ele era interessado por mim, mas era meu professor, né? Com o tempo fomos nos aproximando e acabou acontecendo um beijo. Eu gostava dele, era um homem perfeito. Me tratava muito bem, tinha a vida estruturada, era solteiro e gostava de mim. Resolvi dar uma chance e começamos a namorar. Ele me assumiu sem medo nenhum pra quem quisesse saber. Mas amor mesmo eu sentia pelo outro.

Acabei perdendo a minha virgindade com ele, estava bem, quase formada, namorando com um homem de verdade e acabamos ficando noivos.

Um dia a minha ex-sogra me ligou e disse que ficaria muito feliz se eu fosse no aniversário dela. Conversei com meu noivo, ele entendeu, era bem resolvido nunca foi muito ciumento. Mas não o levei pra festa, não achei conveniente. Lá a minha ex-sogra abriu o coração pra mim, disse que o filho estava cada vez pior, que ela sabia que muito disso era pela falta que eu fazia na vida dele, que ele precisava da minha ajuda. Não foi humano o que ela fez. Depositou a culpa em mim, e como eu ainda o amava me senti culpada. Mesmo hoje sabendo que a culpa não era minha. Mas na época eu fiquei mal com tudo isso. Conversei com ele na festa, ele disse que pela primeira vez estava querendo sair do vício, que o vício tirou a coisa mais importante da vida dele: Eu. Fiquei balançada. Ele começou a me ligar, conversávamos um tempão no telefone como na época do colégio. Ele me falava de como nossas conversas estavam ajudando ele, do tratamento que ia começar a fazer, dos planos pro futuro, do emprego que o pai ia dar pra ele na empresa da família se ele conseguisse. Ali eu comecei a ver um homem, não um menino mimado e drogado.

Não sei dizer quando eu decidi acabar o meu noivado. Mas tive que acabar. Meu ex-noivo era um homem muito bom, que merecia ser feliz com uma mulher que realmente o amasse. Mesmo que o outro não tivesse se recuperando, eu sempre o amaria, mesmo casada e isso não era justo.

Eu tentei não me desesperar querendo ajudá-lo, eu quis que ele andasse sozinho com as próprias pernas. O que eu fazia era conversar pelo telefone, ele pedia pra me ver, mas eu nunca aceitava. Quando disse que tinha terminado o noivado (eu contei quase 1 mês depois de terminar), ele desligou o telefone e apareceu na porta da minha casa. Ali conversamos, rimos, mas nada aconteceu. Aconteceu um tempo depois. E desde esse dia estamos juntos.

Hoje estamos noivos. Ele nunca pediu pra namorar comigo, ele fala que já passou esse momento. Ele apareceu com uma aliança e me pediu em casamento. Pulou a etapa do namoro.

Há 2 anos ele assumiu um cargo muito bom na empresa do pai, é muito bom no que faz, é inteligente e está longe das drogas. Sei que isso não é garantia de nada, mas o que garante alguma coisa nessa vida, não é mesmo? Estou feliz com os preparativos do casamento, com o meu vestido de noiva, com os convites, com o local, com a decoração, enfim, com todos os detalhes de casamento que nós mulheres adoramos.

O meu amor não é um príncipe encantado, mas tem o sorriso mais lindo desse mundo e está conseguindo me fazer muito feliz.

Meu e-mail: leticiabittencourtpr@hotmail.com

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Comments

  1. Eu poderia dizer q vc teve um final feliz que todas querem ter..parabens pelo noivado…eu sempre acreditei q qndo é pra ser…será!!

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  2. Letícia, parabéns por acreditar no amor até o fim. Confesso que no seu lugar eu não teria terminado com o professor por mais que amasse o outro. Ver a sua coragem me dá forças para ver os relacionamentos com olhares mais bonitos. Beijos

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  3. Maria Clara says:

    Nem acredito que teve um final feliz. Adorei!

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  4. Eu torci por você amiga. Que final mais lindo!!!
    Estou emocionada e acredite: Você é uma mulher admirável.

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  5. Letícia,

    incrível como esse cenário não é só nas novelas:

    “Os pais dele nem desconfiavam, dá pra acreditar? A mãe era dessas peruas que viviam pra gastar o dinheiro do marido e o pai um empresário muito bem sucedido, o que fazia do meu amor um menininho rico, mimado e drogado. Os pais dele passavam a maior parte do tempo longe de casa, ele filho único sem ninguém pra vigiar o que acontecia.”

    fiquei triste por ele, mas feliz por vocês e torço pra que ele consiga se manter limpo pelo resto da vida de vocês.Mas se isso não acontecer, você tentou e nunca mais se sinta culpada. Ele não é o príncipe encantado, mas a história é de conto de fadas…rsrsrs. Parabéns e viva muito seu amor!

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  6. Uma história com final feliz! Parabéns
    Existe esperança de mudanças no ser humano.
    Beijos e boa sorte no casamento.

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  7. Essa, sim, é uma linda história de amor! Parabéns pela sua grandeza de espírito, ética e abnegação. Histórias como o sua me fazem crer na humanidade; fiquei muito emocionada.
    Eu te desejo toda a felicidade do mundo!
    Abraços!

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  8. Finalmente um fiinal feliz!

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  9. Tão linda história de amor!
    O texto ficou maravilhoso, amei!
    E felicidades pra vocês sempre!

    Beijos

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  10. Lindaaaaaaaaaaaaaaaa história!!!!!!!!

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  11. Linda história, sem príncipes no cavalo branco! Realidade belíssima! Parabéns 😉

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  12. Leticia… posso dizer que me identifiquei um pouco com a história. Em parte por também ter tentado ajudar alguém que não queria receber ajuda. No caso, um amigo, quase um irmão. Porém, é o mesmo sentimento desesperador e de culpa por não conseguir fazer nada.
    Eu ainda acredito que o tempo é o melhor remédio. Ele mostrou que o garoto realmente te amava. Felicidades para vocês!

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