53 dias – Esquecer

Já assistiram O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças ?

  • (Este post contém spoiler sobre o filme, portanto, se ainda não o viu e pretende ver, é melhor parar por aqui).

É a história do amor de Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet).

Amor vivido intensamente e de forma tumultuada, como a maioria dos amores e não deixando de desejar que seja eterno. A química entre os dois é incrível, mas… todo amor tem que ter um mas… A vida e suas complexidades.

Após desencontros e desventuras de todo o amor vivido pelos dois, Clementine decide se submeter à um procedimento (fictício, claro, isso não existe na vida real) criado por um Doutor que propõe apagar lembranças. Clementine apaga Joel da sua memória, não só as dores mas as alegrias também, tudo que pudesse lembrar que ele fez parte da sua vida.

Joel a encontra e além de vê-la com um novo namorado, ela o trata como um completo estranho. Ele, após investigar o que houve, descobre que ela o apagou e fica desesperado, revoltado e desiludido. Decide procurar este tal Doutor para também apagar Clementine da sua memória.

Grande parte do filme relata o momento em que Joel é submetido ao procedimento, que dura algumas horas enquanto ele “dorme”. Mas, Joel está “consciente” e acompanha todo o processo dentro de si mesmo. E enquanto ele assiste suas lembranças com Clementine sendo apagadas, ele percebe o quanto ainda a ama. Ele começa a tentar impedir que a equipe deste Doutor continue, mas ele está “dormindo”. “Acordado” ele está somente dentro de si mesmo, da sua mente, das suas lembranças. O que vemos é uma fuga dentro dos labirintos das memórias dele, correndo contra o tempo, onde Joel tenta esconder Clementine nas áreas mais profundas do seu inconsciente. Usa estratégias e artifícios para escondê-la na sua infância, quando ele ainda não a conhecia. É avassalador e angustiante acompanhar a luta caótica de Joel para que ele não perca o que quis perder. Represento o nó que senti com uma frase dita por ele, ao ver uma boa lembrança dela sendo apagada:

Por favor, por favor! Deixe-me guardar só esta lembrança! Só esta…

Faz pensar o quão doloroso pode ser apagar alguém da memória, ver o amor e os bons momentos se esvaindo, mesmo que o momento de tristeza atual peça isso. É como se perder a pessoa fosse bem menos doloroso do que perder tudo de bom que ela representou um dia.

O mais interessante é presenciar Joel diante de certas lembranças e ver tudo de uma ótica bem diferente da anterior. Joel e Clementine não são Romeu e Julieta. Ele é um cara certinho e tímido. Ela é extrovertida e louca, durante o filme aparece com umas 5 cores de cabelo diferentes. São duas pessoas bem diferentes, cada um com seus defeitos, suas falhas, suas manias, seu jeito de ser. E como a maioria, querem somente o lado bom um do outro. Mostrando o quanto é difícil tolerar certas coisas da outra pessoa. No momento da perda das lembranças, onde Joel assiste a tudo, acredito que ele se vê diante de situações em que a flexibilidade e a aceitação eram bem simples e possíveis. Ele percebe que apesar das dificuldades dos dois, dos problemas, das brigas, ela foi a melhor coisa que aconteceu na vida dele. O amor dos dois não é idealista, é realista… aquele que vê todos os conflitos e mesmo assim ainda vale a pena.

Esquecer dói mais do que lembrar. Lembrar não é perder, esquecer é. Somos produtos das nossas lembranças. A partir delas, sejam boas ou ruins, construímos o que chamamos de Eu.

No caso das lembranças amorosas, no meu caso e no caso de todas as histórias de amor que eu conheci, não existe amor que seja feito somente de dor e lembranças ruins. Antes de doer, um dia, foi bom. Quando leio histórias de amor de meninas que conheci através deste blog, eu sempre as vejo falar coisas lindas que aconteceram um dia. Palavras bonitas, gestos, romantismo, carinhos, olhares, silêncios, viagens, conversas, enfim, uma série de momentos tão lindos que fazem elas e eu mesma questionar onde tudo isso foi parar, em que momento tudo se perdeu. E parece que por melhores que sejam as lembranças, pior é a dor do momento atual, do fim. É uma dor que parece não ter fim, toma conta de tudo ao ponto de tirar todo o sentido do viver. Isso faz eu pensar se seria da mesma forma, caso as lembranças fossem todas ruins. Acredito que não. Pelo menos no meu caso, acabar com algo que só foi ruim, é um alívio, uma libertação, nunca uma dor.

Sei que boas lembranças também podem doer muito no presente pelo simples fato de não existirem mais. Por só restar uma saudade… aquela vontade nostálgica de voltar pro passado e viver tudo de novo. Sei que dói. Mas dói tanto assim ao ponto de valer a pena apagá-las definitivamente da memória ? Apagar a memória não apaga o sentimento.

O final do filme é surpreendente. Bom para os que acreditam no destino, ou na força do amor verdadeiro.

No fim do procedimento, Joel deixa uma pista pra ele mesmo: Montauk.

É um lugar… uma praia… e num belo dia ele acorda, sem entender o porquê deve fazer isso, de alguma forma ele sabe que não deve ir ao trabalho e só pensa que deve ir a Montauk. E, mudando o caminho do trabalho, ele segue pra Montauk. Lá, ele reencontra Clementine. Dois completos estranhos se conhecem novamente.

Uma das integrantes da equipe daquele Doutor (motivada pela raiva ao saber que foi apagada também), reúne uma série de provas e fitas com depoimentos de pessoas que passaram pelo procedimento. E Joel e Clementine descobrem que se apagaram um da memória do outro. Eles não sabem os motivos, ficam confusos… mas mesmo assim, (re) escrevem uma nova memória, uma nova história.

É um grande filme. Já perdi as contas de quantas vezes assisti. Pena que sou meio Clementine, as vezes impulsiva como ela, histérica como ela. O bom é que com calma, como agora, eu sou meio Joel, e consigo refletir como nós colocamos o outro no relacionamento. Como é difícil a convivência e todas as coisas envolvidas. Como estamos fechados para a aceitação. Mas, como é fácil olhar as coisas de outro angulo e ver que tudo é simples de ser resolvido. Não devemos esperar só o bom do amor e da outra pessoa porque nada é perfeito, muito menos quem está do nosso lado. Precisamos aprender a entender que nada nem ninguém deve ser da forma que queremos, que o mundo não deve se adaptar a nós  e que essa forma mimada de ver a vida, não acaba com o amor, mas o afasta. Talvez volte um dia, quem sabe.

Assim como Joel e Clementine. O amor verdadeiro, mesmo diante de todas as adversidades, problemas, defeitos, erros e até do esquecimento das lembranças, é destinado a acontecer.

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Comments

  1. Não assisti o filme mas, curiosamente, essa semana o procurei pra comprar (algo dentro de mim pediu que eu o assistisse) e estava esgotado nos sites de venda. Continuo procurando… Algo me diz que devo assisti-lo.
    Sobre os amores… Não sobram só as lembranças ruins, se fosse assim não seriam amores. O que nos faz fiéis a esses sentimentos é justamente a lembrança da felicidade que tivemos e sentimos.
    “Talvez volte um dia, quem sabe.” Essa tua frase bateu pesado hoje… Como eu queria isso!

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  2. Apagar da lembrança não apagou do destino. Destino? Pode ser… Apagar fotos, apagar e-mails, sms e recados, não apaga do coração. Talvez a gente nem queira, no fundo…
    Sim, as lembranças boas vêm e vêm e continuam vindo mesmo qdo queremos lembrar coisas ruins. Vêm em sonhos… Como tem chegado por aqui…
    É tudo tão confuso!
    Belo texto, amiga… Como sempre, vc é espetacular!
    Queria ver esse filme… =/
    Beijos

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  3. Ah agora quero ver o filme =/! Flor que texto hein, vc arrasou =D.
    Aí querida esses dias estou tão sumida, porque não tenho palavras sabe. Tentando me encontrar outra vez. Com essa idéia louca de apagar tudo o que me faz lembrar “ele”.

    Li em seus ultimos posts sobre a festa o que acabou acontecendo…
    Não fica assim não viu, ninguém merece isso da gente.

    Ótima semana querida =D – Bjks da Day!

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  4. Florzinha minha linda!!!
    Vamos viver a vida!!!Lá fora faz sol e você continua contando os dias sem ELE!!!!!!Pelo amor de Deus, vamos mudar o foco, você é linda de morrer, alegre e tem saúde!Abra seu coração para o NOVO entrar!

    beijos,

    Bia

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Trackbacks

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